Onde estão as palavras?

Onde estão as palavras?
Lavras a terra e escolhe
Colhe as letras mais sucintas
Sinta as palavras que escorrem
Correm livres pelos silêncios
Entre os seios e a boca
oca e calada
Alada e galopante
Ante o ser e o será

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Café das duas

Para que ter dentro de si
um sentimento puro
se nós podemos aterrorizá-lo?
Para que ter na lembrança
um lugar bonito
se nós podemos destruí-lo?
De que te serve a memória
deteriorada na carne?
Te serve?

Para que ter em mãos
um sonho que não vôa?
Para que respirar à toa?
Vou lavar as mãos
e escovar os dentes
não posso nem pensar
no presente
que é existir
Deixo as palavras e as cenas
para os meus profetas
que são cineastas
e escritores de livros
que eu nunca li

Passo um café
às duas da manhã

Desenhar o tempo

Não tenho tempo para esperar
Espero o tempo que passou
pra não voltar
Não tenho planos para atrapalhar
Espero o tempo que trás tudo
ao seu lugar

O meu lugar é um ângulo
entre o infinito e o amor
Não faço juízo e não tenho pudor
A céu  é sempre da cor que vejo
o dia de ontem não me lembra amanhã
se da manhã de hoje não me lembro

O meu lugar é uma linha no tempo
que desenha a curvatura do espaço
meu sonho é um segredo
que eu crio e me desfaço
como se eu fosse criança
e como se não fosse

Não tenho tempo pra perder
com coisa séria em horário fixo
eu abro mão disso
para apreciar a rotina dos pássaros,
desenhar o tempo
e entender o desenho

 

Para Fran Kelita
que continue a desenhar

Querente

Eu queria chorar
lágrimas de verdadeira dor
Queria incorporar uma cor
acordar às claras
assoprar as velas
e velar o amor

Eu queria sorrir
com meus dentes sujos de razão
Queria acalmar a emoção
me lamber de sede
conversar com uma parede
e exaltar a solidão

Eu queria ficar
no instante e em que estou e sentir
o sol pelos meus pelos subir
o chão dos meus pés descer
Eu queria ver despida a vida
antes dela envelhecer

Eu queria partir
para além do ser, me tornar
uma metáfora a se distinguir
um conselho a se dar
Eu queria me guardar aqui
mas o tempo quer me fazer transformar

Olha alegria!

– Olha alegria!
Olha lá
tardia surgia
desritimada
Olha alegria aguardada
Cade? sumiu, passou
duas madrugadas sem madrigal!
Olha o suspiro matinal dessa tardinha
que parou minha vidinha
por que eu parei pra ver
O bonito que todo dia tinha
sem ser igual

– Olha alegria!
Cade? Vazou!
Deu um serelepe na estriquimina
comeu todo o estoque da temporada
e se aposentou
O que sobrou está num mural
Alegria temporal
Prazer enchorrada
Apesar da roupa amarrotada
meu sorriso é maior que uma risada

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Ao fim do dia

Pelo tempo que nos sobra
temos um tanto que nos desdobrar
na peleja da gana que nos cobra
há um mundo que não tem hora para acabar
A noite nos convida para uma dança
vem cá, bandida criança
temos muito o que conversar
na mesa do bar o tempo avança
sobra alguma cobrança
entre outras contas à pagar
Pelo tempo que nos cobra
o dobro da sobra é o desconto a nos dar
não temos tempo para olhar a hora
temos cobras crianças pra criar
temos que procriar, temos que procurar
esperanças, onde estão essas crianças?
que tristeza vê-las a chorar

Confissão

Era um dia de verão
minha ilusão, paixão amiga
brincava de ficar escondida
na contida febre, solidão

Eu disse da minha tristeza
sua beleza era ser esquecida
sua grandeza era ser tão contida
ter só uma vida era sua fraqueza

Como era um nada
a verdade coibida
eis, agora, sua confissão

Como era pesada
como era doída
a lágrima que estourou meu bordão

Conversa afiada

berimbau de bambu
beabá de bebum
boi bumbá nanico
sal no rabo de tico-tico
na biqueira, uma bica
na fogueira eu fico
vai na carica
cumbuca quente na larica
marmita requentada
de jiló com ovo frito
vida bonita, distrito
federal sorriso matinê
de parasita, peitoral
de remador do tietê
em casa aquele cheiro
de tevê, que não desliga
novelo de lã e novela
na panela, perna de rã
com saliva de megera
o caveirão vai subir
na favela!
eu quero ver o futebol
de sabão das pantera
vou é tomar banho de sol
na cadeia!
viúva negra sem teia
piripaque de conhaque
que me deu um nó
dei um teco num pó
e tico e teco me deram
o trabuco, com duas ampola
de morte
como eu não sou forte
e nunca tive sorte
dei uma pra ela
e outra pra mim
FIM.

Para o amigo de tantas conversas e risos, Lucas Almeida ,
ou cruj

Cair da noite

Uma menina me tira
o sono a mais de um ano
Uma cocaína, adrenalina
no meu encanamento
interiorano plano
cartesiano do pensamento

Solto um grito da vagina
hoje é o dia da faxina
de estancar o sangramento
de renovar o sacramento
da mentira, de sair
de noite e voltar de zinha
cheio de arrependimento
do cio da noite e do açoite
que eu não tento
e não me esquento

Deixei cair cinzas de cigarro
no meu copo de cerveja quente
bebi cada gole descontente
Não fiz escarro
acho meu comportamento bizarro
se faço alguma coisa indecente
no meu carro
inexistente

Amoratura

Maracujá Amarula
Amarelo manga
Umuarama à Maringá
Casto de fé,  cesto de café
na fina firula,
e fileira de pé de cana viral,
queima a alma etanol.
Eita sol!
Se me empaca a mula,
empato e fico
feito frango frito fresco,
crespo Cristo
escasso, esqueço
Casco de cabresto
estômago de gol!
Amido de milho liso,
amigo de lindo índio
me indica onde é que eu estou.
Macunaíma,
como é que macaco manca?
como é que mulhermente
minha pai, chão, criança suja
Limpa pia, alisa a louça loucura
Cutuca tua toca,
varre a tua cota
Suje a tua agenda,
agente já vai embora
a janta já ta pronta
Baby Bife de amor
por minha conta.